A Escolha do Terreno

“Qual é o melhor terreno pra construir?” é uma das questões mais levantadas pelos meus clientes que desejam orientação na hora da compra de um lote. E a dúvida é realmente pertinente já que há vários fatores envolvidos nessa decisão e que podem ser cruciais para o desenvolvimento do projeto adequado da sua edificação. Algumas das principais variáveis envolvidas são legislação, topografia, orientação solar e incidência solar, posicionamento na quadra e interesses de projeto.

LEGISLAÇÃO

Buscar conhecer qual o zoneamento local, usos permitidos e área máxima de construção, bem como as restrições construtivas para este espaço são itens fundamentais para a escolha do terreno. Além disso, condomínios tendem a ter ainda mais restrições conforme padrão pré-estabelecido pela administração.

TOPOGRAFIA

O melhor é o plano, correto? Nem sempre. Os terrenos planos, que tendem a ser mais caros, são interessantes aos que desejam edificações com maior acessibilidade (sem muitas escadas e rampas) e com menor custo de construção, por não exigir acomodação de terra e muros de contenção. Por outro lado, terrenos em aclive e/ou declive possibilitam o aproveitamento maior da paisagem circundante, além de propiciar um menor confinamento entre os vizinhos, mas também exigem acomodação de terra e mais escadas/rampas. É preciso, então, colocar na balança o que é mais importante para sua construção.

ORIENTAÇÃO SOLAR E INCIDÊNCIA SOLAR

Alguns ambientes, dependendo do uso, do tempo de permanência, dos equipamentos necessários, entre outros, devem receber maior ou menor insolação. O posicionamento do sol é uma das condições primeiras para a definição do projeto. Porém, não só a orientação solar, mas a existência de barreiras (como um edifício alto) pode minimizar a incidência solar em determinados lotes. Assim, é necessário verificar-se qual é a orientação mais adequada ao tipo de edificação que se pretende construir e como esse sol incide exatamente sobre o terreno.

POSICIONAMENTO NA QUADRA

Lotes de esquina permitem uma exposição maior da edificação por deixar duas faces aparentes ao longo das ruas que se cruzam, e nesse sentido proporcionam maior visibilidade, maior ventilação e insolação, e maior exploração das soluções de fachada, muitas vezes deixando a edificação mais atraente. Já lotes no miolo da quadra podem significar melhor opção quando as questões de privacidade e segurança estão envolvidos, além de geralmente custarem menos que os de esquina.

INTERESSES DE PROJETO

Que usos você quer dar para o espaço (residencial, comercial, institucional), de quais infraestruturas você precisa estar próximo (pontos de ônibus, locais para estacionamento, bancos, mercados, fornecedores, parques, etc.), e qual é o seu programa de necessidades (espaços de que precisa no projeto), todos são interesses de projeto cruciais para a escolha do terreno. É necessário avaliar qual a intenção final e quais são suas prioridades.

Apesar de muitas vezes a compra do terreno acontecer por oportunidades de negócio, a escolha do lote depende antes de muitas variáveis não tão simples quanto se imagina. Se você quer ter maior segurança e a orientação adequada, procure um arquiteto para auxiliá-lo e deixar sua escolha ainda mais consciente.

Arquitetura Contemporânea

O homem está hoje envolto por tecnologias avançadas que tendem a facilitar sua vida, otimizar tempo e promover encontros, como os potentes celulares, computadores, tablets etc. Porém quando se trata de arquitetura há certa restrição ainda em aceitar modos construtivos mais modernos. Muitas vezes preferem-se formas clássicas de construção, com fachadas que remetem a uma arquitetura mais tradicional. É só olharmos à nossa volta e repararmos qual é a predominância na paisagem urbana.

O que vemos é uma série de repetições de padrões, uma referência construtiva tradicional de diversas origens, como os conhecidos popularmente (e não academicamente) “neocoloniais” e “neoclássicos”, por exemplo. Mas afinal qual forma de arquitetura pode proporcionar maior bem estar aos seus usuários, uma ‘arquitetura contemporânea’ ou uma ‘arquitetura de cópia de estilos passados’?

Primeiramente, é importante destacar que arquitetura contemporânea não é um estilo, mas sim, como diz o próprio nome, um modo de se fazer arquitetura ao nosso tempo, fiel às nossas localidades e suas características físicas, culturais, populacionais e dinâmicas de vida atuais. A arquitetura contemporânea é uma forma de expressar os saberes de se construir e de se viver desse tempo, como também expressará as características de um tempo futuro, permitindo a fixação do nosso legado no espaço.

Desse modo, a arquitetura que atribui maior bem estar ao usuário é aquela que atende às suas necessidades e seus estilos de vida atuais, de certa forma homogênea aos modos de viver de cada geração. É bem verdade que o bem estar é proporcionado por locais em que o usuário se sente bem, independente dos padrões estéticos utilizados, desde que cumpram funções de conforto, acolhida, segurança, saúde, funcionalidade, técnica e estética. Os espaços emitem estímulos de interação através seus elementos compositivos, tais como formas, cores, luzes, texturas, entre outros, os quais proporcionarão em maior ou menor grau sensações e emoções de bem estar ou mal estar. Essas percepções, por sua vez, estão relacionadas à memória e cultura de cada indivíduo e, portanto, irão variar de pessoa a pessoa.

O arquiteto francês Jean Nouvel, o qual tem desenvolvido projetos aliados às novas tecnologias, em entrevista a O Globo em abril de 2016, acredita que “a cidade é um museu. Um livro de pedra, que conta sua história por meio da petrificação dos desejos de diferentes gerações. A tarefa do arquiteto hoje é trabalhar sobre os territórios onde se construiu demasiadamente nas últimas décadas, para transformá-los”. E quando questionado sobre estilos, diz: “Prefiro pensar cada projeto como algo nascido de uma série de fatores, um cruzamento de referências culturais, históricas, de avaliação das possibilidades. (…) Se uma arquitetura não pertence a uma geografia e a uma história, ela é do mundo global, cai de paraquedas.”

Portanto, devemos optar hoje por soluções formais, funcionais, materiais, construtivas e estéticas que traduzam e permitam os modos atuais de viver, ou seja, por uma arquitetura contemporânea, com respeito sim às tradições e características locais, mas de modo a sobrepor nossa camada histórica, a marcar nossa passagem pela ‘cidade museu’.

Estilo Retrô ou Vintage

A utilização dos estilos ‘retrô’ e ‘vintage’, na arquitetura e em outras áreas como moda e design, foi e continua a ser tendência, já que nos remetem a memórias afetivas, muitas vezes familiares, e se baseiam em estéticas já testadas e aprovadas. Aqui no escritório, quando me solicitam esse tipo de composição, porém, percebo certa confusão entre os dois termos, os quais são bem diferentes entre si. Enquanto retrô é uma releitura ou recriação do que se utilizava no passado, o vintage é algo realmente dessas épocas e que denota boa qualidade por ter permanecido através do tempo (do inglês: ‘safra de vinhos’).

Em termos gerais, as características do estilo retrô incluem ousadia na composição por se valer de materiais e cores inusitadas sem que o contraste desses elementos choque, antes eles se complementam. Alguns atributos desse estilo em decoração são mobília mais baixa e alongada, móveis com pés longilíneos e pontiagudos (conhecidos como pés-palito), peças cromadas e espelhadas, e cores fortes e variadas (como laranja, azul, lilás, verde, vermelho, rosa, entre outras). Já em arquitetura, pode ser incorporado nas composições de elementos e materiais, reeditados, fazendo alusão a uma determinada época, como os atuais azulejos portugueses os quais são na verdade uma releitura dos modelos usados antigamente, e os elementos vazados de concreto, ou ‘cobogós’, característicos das décadas de 50 e 60 e que hoje são reproduzidos em outros materiais e cores.

As peças retrô costumam ser mais caras que as contemporâneas por incorporar o trabalho de releitura, porém mais acessíveis que as vintages, geralmente encontradas em antiquários e/ou lojas do gênero com alto custo tanto pela idade, estado de conservação e raridade, quanto pelo valor afetivo que possuem. Para a utilização do vintage em arquitetura e interiores, pode-se valer do garimpo de materiais e elementos originais, nos conhecidos museus e cemitérios de azulejos por exemplo, e em decoração com mobiliário e objetos originais de época, tais como louças, eletrodomésticos, luminárias e cristais, entre outros.

Nos espaços contemporâneos, a utilização desses estilos configura uma tentativa de resgatar os valores desses períodos, a fim de atribuir maior personalidade e glamour aos ambientes e edificações. Porém, não se devem forçar determinados estilos simplesmente por modismo, mas sim compreender quais referências são positivas ao usuário final e poderiam então ser incorporadas.

Assim, peças antigas (vintages) ou peças de releitura (retrôs) se combinam com peças atuais para transmitir uma imagem nostálgica de uma individualidade própria. A eficácia da composição, para não deixar os ambientes ultrapassados ou carregados, entretanto, está justamente na sensibilidade do profissional em dosar os estilos em questão e nas preferências do morador/usuário final.

 

 

 

Ambientes Infantis

Quando se pensa em ambientes destinados a crianças, é comum o senso de que eles devem ser sempre coloridos e remeter a figuras infantis temáticas. Será que isso é sempre verdade? O que deve ser realmente considerado para a conformação desses espaços?

SEGURANÇA

Antes de tudo, qualquer ambiente projetado para crianças deve ser primeiramente seguro quanto à sua forma e às instalações disponíveis. Os fluxos nesses espaços devem ser desimpedidos ou protegidos de obstáculos, como escadas, guarda corpos escaláveis, objetos e móveis pontiagudos etc., e também de equipamentos que possam apresentar perigos, como tomadas, eletrodomésticos, produtos de limpeza e químicos etc. Esse cuidado permitirá que a criança explore, reconheça e se aproprie do espaço sem imposição de limitações.

TIPOLOGIA

Também é conveniente levar em consideração que tipo de ambiente se trata para o desenvolvimento do projeto, por exemplo, se é residencial (quartos), institucional (escolas, bibliotecas, hospitais infantis), comercial (lojas, espaços kids, livrarias, buffet infantis, brinquedotecas) ou público (parques, zoos, acampamentos), já que cada um suscitará diferentes soluções conforme o uso, tempo de permanência, funções a serem desenvolvidas, tipo de mobiliários necessários, entre outros.

ERGONOMIA

A ergonomia também é fundamental para a autonomia das crianças e seu desenvolvimento psicomotor. A utilização de móveis com a escala reduzida, condizentes à faixa etária e tamanho da criança, possibilita aos pequenos maior liberdade na movimentação, posturas mais adequadas e esforços conforme sua capacidade. A exemplo, uma cama com altura baixa permite autonomia no deitar-se e levantar-se, minimizando-se a ocorrência de quedas e outros acidentes.

ORGANIZAÇÃO

Além disso, a disposição e organização dos itens também podem ensinar e educar através das informações visuais facilitadas, como caixas organizadoras com desenhos, transparência dos mobiliários para ter acesso visual ao conteúdo, portas com números ou desenhos, caminhos marcados por cores ou texturas. Todos auxiliam na assimilação dos ambientes e agregam em sua educação.

LUDICIDADE E FLEXIBILIDADE

Finalmente, os ambientes lúdicos também podem garantir maior interação da criança e o consequente exercício da imaginação através de espaços que permitam adaptações, modificações e recriações. Nesse sentido, a flexibilidade é fundamental ainda na incorporação de variadas faixas etárias e diferentes formas de apropriação de um mesmo ambiente.

A arquiteta Cintia Shiguio (da Gruu Arquitetura Infantil) acredita que o lúdico deve ser utilizado em qualquer lugar, sempre se valendo da flexibilidade espacial para modificarem-se os temas, os mobiliários, a iluminação etc. A arquiteta ressalta que não necessariamente deve-se valer de cores superestimulantes: “não se devem utilizar cores primárias (vermelho, azul e amarelo) para as crianças, e sim cores mais elaboradas como rosa claro, rosa escuro, roxo, verde água, azul ‘cor do céu’, marrom, entre outras. Assim como os adultos, as crianças são seletivas e tem gostos variados entre si, sendo necessário entender o perfil de cada uma durante o desenvolvimento dos projetos”.

Para Cintia, ainda, o uso de temáticas e motivos infantis na decoração pode ser um empecilho à conformação dos espaços ao longo do tempo e, portanto, não são obrigatórios. “Decorações com temas de personagens de desenhos, por exemplo, podem não ser um bom investimento já que as crianças mudam de preferência muito rapidamente”. Se mesmo assim optar-se por essa solução, a dica é utilizarem-se as temáticas em pequenos objetos que podem, posteriormente, serem trocados mais facilmente e a custos menores.

Hoje em dia, com espaços cada vez mais reduzidos em apartamentos e casas, a busca por espaços mais flexíveis e criativos são as solicitações mais frequentes dos clientes com filhos pequenos. A dica é pensar nas futuras mudanças para propor soluções que otimizem os investimentos e sempre ter por base as considerações de segurança, tipologia, ergonomia, organização, ludicidade e flexibilidade dos espaços.

Conforto Térmico

Agora com a chegada do frio, nós brasileiros da região central e sul tendemos a sofrer com as oscilações de temperaturas internas às edificações, já que diferentemente dos países que se valem do sistema de calefação (sistema de aquecimento central distribuído a todos os ambientes) não é de costume aqui serem incorporados para garantir uma temperatura adequada no inverno. Sem o uso de sistemas para aquecimento, os materiais empregados na construção podem contribuir de forma significativa e, nesse sentido, as escolhas corretas podem promover um ambiente com temperatura amena sem necessariamente valer-se de equipamentos mais caros e que consumam mais energia.

A localidade da edificação é fator importante na escolha e composição desses materiais para o adequado conforto térmico. Por exemplo uma habitação em clima mais quente e úmido necessita de materiais mais leves e de aberturas mais permeáveis aos ventos, enquanto em clima mais quente e seco, deve-se minimizar a influência dos ventos através de aberturas controladas e materiais que não permitam grandes oscilações. Já em climas frios, é necessário minimizar trocas de calor com pequenas aberturas e materiais altamente isolantes. Em climas temperados, por fim, é importante valer-se da adaptabilidade às variações constantes de temperatura.

Para tanto, os materiais utilizados nas coberturas e telhados são aqueles que devem possuir maior índice de isolamento, já que estão expostos diretamente à incidência solar e podem promover grandes variações de temperatura interna. Uma solução eficiente seria a composição de vários materiais, como o de superfície (estanque à água), o de subcobertura com faces aluminizadas (emite menor radiação para baixo), o de forração com mantas isolantes, e o próprio bolsão de ar entre cobertura e laje ou cobertura e forro, já que o ar em si é um ótimo isolante térmico. Alternativas usuais para as lajes que não receberão nenhum tipo de cobertura é a composição de um “telhado verde” que, além de bom isolante, absorve a radiação solar e transmite menos calor, garantindo menos oscilações internas.

Na contramão dessas propostas, as coberturas de vidro e policarbonato são alternativas que conduzem mais calor pela incidência solar direta e, nesse sentido, devem ser utilizados em situações e ambientes que demandem maior aquecimento e iluminação, conforme contexto local e usos.

As paredes, por sua vez, para maior isolamento podem ser duplas, com ar entre as camadas, ou, quando não há espaço para construção desse sistema, podem ser incorporados materiais isolantes nas paredes externas pelo lado de dentro. Ainda, pode-se valer de materiais de acabamento decorativo para uma função também isolante, como o caso da forração com cortiça e materiais emborrachados.

Portanto, a escolha dos materiais corretos de sua construção pode contribuir significativamente ao conforto térmico da mesma e dispensar o uso de sistemas de aquecimento e/ou o consumo maior de energia. As decisões quanto ao emprego de um ou outro material devem estar pautadas nas condições climáticas locais, nas intempéries recorrentes, nos tipos de ambientes a ser produzidos bem como nos usos a que os espaços serão destinados. Assim, valer-se dos serviços de arquitetas ou arquitetos sobre as especificações materiais bem como o correto emprego conforme cada situação é o caminho mais adequado para poder atribuir maior conforto térmico aos seus ambientes.

 

Piso Permeável

É de conhecimento geral que as cheias dos rios em épocas de chuva podem configurar graves problemas a uma cidade. Sistemas ineficientes de coleta e deposição de lixo, poluição a beira rio, despejo direto, problemas nos sistemas de drenagem, insuficiência da vazão, ocupações irregulares em áreas de inundações naturais, planejamento urbano inadequado ou ausente, remoção da vegetação ciliar, todos são causas significativas das enchentes em áreas urbanas. Porém uma das principais causas a ser destacada é a impermeabilização do solo.

Com a pavimentação de ruas, calçadas, quintais, estacionamentos abertos e outros, a água que infiltraria no solo escorre encorpando enxurradas em direção aos rios, o que ocasiona não apenas as enchentes, mas também aumento da velocidade da água, erosão do solo, assoreamento dos rios e deslizamentos de terra. Foi o que ocorreu com a cidade de Itatiba em meados de março desse ano. Mas diante desse cenário já consolidado da cidade, como podemos intervir para resolver tais problemas? Será que há algo ao alcance do cidadão comum para minimizar os efeitos das chuvas sobre as cidades?

Antes das grandes intervenções urbanas que possam ser feitas pelo poder público, tais como o desassoreamento e aumento do leito dos rios, construção de barragens ou piscinas de contenção, muros de arrimo ao longo das margens, reforma nos sistemas de drenagem, desocupação das áreas de risco, entre outras, medidas simples podem ter efeitos significativos nesse contexto, já que atuariam na prevenção das enchentes e poderiam ser colocados em prática pelos próprios cidadãos. A instalação de pisos permeáveis e pisos drenantes, a exemplo, em áreas de pátios, quintais, estacionamentos e calçadas são de grande importância nesse contexto. Em relação aos pisos permeáveis, que permitem escoamento da água por entre as junções das peças, há por exemplo os paralelepípedos e os pisos intertravados. Ruas de paralelepípedo vistas muitas vezes como “precárias” ou “de pavimentação ruim” vão de acordo, entretanto, com a questão da permeabilidade, e configuram uma alternativa importante a ser utilizada também pelo poder público. Já os pisos drenantes são aqueles que possuem poros em seu interior os quais permitem a passagem da água, sendo mais indicados à acessibilidade por ser mais uniformes e estáveis, como menos juntas e vãos. Há no mercado uma série de modelos, como o piso drenante de concreto, compostos de poliuretano e pedras, asfalto, materiais reciclados, entre outros.

A instalação de canteiros com vegetação, de “telhados verdes” (coberturas com tratamento adequado para receber jardins), de “paredes verdes” (jardins verticais instalados em paredes) também auxiliam por reterem parte da água de chuva. Recentemente, Toronto no Canadá (2010), França (2015), Recife no Brasil (2015) e Copenhague na Dinamarca (2016) tornaram obrigatório o uso de telhados verdes em novas construções por também diminuírem o consumo de energia e melhorarem a qualidade do ar. Além disso, a instalação de pequenos reservatórios para retenção das águas de chuvas (caixas de retardo), apesar de já constituírem exigência na aprovação de alguns projetos de grande porte junto às municipalidades do estado, poderiam também ser implantados por iniciativa particular em construções menores para minimização dos efeitos da chuva. Se essas medidas são suficientes para evitar enchentes? Bem, isoladamente não, porém se consideradas dentro de um conjunto de ações seguramente irão minimizar os impactos das chuvas e influenciar positivamente o curso dos fenômenos urbanos.

Drywall e Steel Frame

O consumo da tecnologia de Drywall e Steel Frame no mercado brasileiro da construção ainda é recente e vem crescendo a cada ano, apesar de ser baixo se comparado a outros países, como aos Estados Unidos. O baixo consumo deve-se muitas vezes ao preconceito a essa forma de construção, mais leve e com estruturas menores que as paredes de alvenaria, muito usuais em nossa construção.

A tecnologia de Drywall, traduzida como “parede seca”, é utilizada para ambientes internos e envolve placas de gesso aparafusadas em perfis de aço galvanizado as quais não necessitam de argamassa para sua construção, o que garante à obra maior limpeza e menor tempo de execução. O Steel Frame, por sua vez, “estrutura de aço”, é utilizado como fechamentos externos e, por isso, sua composição é formada por um esqueleto estrutural de aço, em maior quantidade que o Drywall, e chapas cimentícias como vedação para proteção maior às intempéries.

Tais tecnologias podem, então, ser utilizadas como paredes de fechamento, paredes internas, tetos e revestimentos, e tem sido mais bem aceitas em áreas comerciais e de serviços, já que aí a necessidade de adaptação e personalização dos ambientes conforme os serviços prestados ou os comércios a serem instalados é mais facilmente conseguida. Além disso, permitem reformas mais rápidas e simples do que estruturas que envolvam a alvenaria, além de gerar menos entulho. Nesse sentido, outra vantagem é em relação às tubulações elétricas e hidráulicas acomodadas em seu interior, que permitem ajustes mais simples de ser executados já que não estão envoltos por blocos e argamassa.

Também, por possibilitar a confecção de paredes em torno de 11 cm de espessura, permitem um ganho de área útil em relação às alvenarias convencionais que pode chegar a 4% a cada 100m². E por pesar menos que uma parede de alvenaria, consegue-se uma redução no custo das fundações e estruturas da edificação, além de consumir-se menor quantidade de materiais.

É importante atentar-se, entretanto, à qualidade da mão de obra empregada em sua construção, pois se não tiver o devido treinamento e preparo poderá confeccionar paredes com emendas visíveis, foras de esquadro e de reparos delicados, que exijam maior cuidado e custo antes de se executar os acabamentos.

Ainda, instalações de equipamentos apoiados nas paredes, tais como bancadas de pedras, marcenarias, painéis e quadros, e nos forros, como luminárias pendentes, devem ser previstos para que sejam reforçados estruturalmente, com instalação de maior número de perfis metálicos e/ou placas de madeira OSB (no caso das paredes).

Questionamentos comuns em relação a essas tecnologias permeiam a questão do conforto térmico e acústico, que tende a ser contornada com associação de materiais isolantes específicos para esses fins.

Com essas características associadas à economia, limpeza, menor consumo de recursos, adaptabilidade, entre outras, esses sistemas alternativos vem ganhando o gosto dos brasileiros. O desafio agora é o aceite dessa tecnologia às construções residenciais que, a meu ver, oferecem grandes possibilidades ao homem de hoje, como modos de vida em constantes transformações e que requerem, dessa forma, ambientes que acompanhem tais evoluções.

Abrigos em Desastres

O recente rompimento das barragens de rejeitos de mineração ocorrido em Bento Rodrigues, distrito de Mariana em Minas Gerais, nos demonstrou o quanto estamos vulneráveis a eventos desastrosos (ainda que possam ser previstos e mitigados) os quais podem resultar em grande destruição, inúmeros desabrigados e muito sofrimento.

Em desastres como esses, a acomodação das vítimas que perderam suas casas, ou que foram temporariamente afastadas por conta dos riscos próximos, tende a ser uma das questões mais importantes que permeiam a reconstrução do cenário urbano atingido. Num primeiro momento, as próprias pessoas desalojadas procuram abrigos com familiares e amigos próximos que não tiveram suas casas atingidas, enquanto aqueles que não possuem aonde ir são acomodados pela defesa civil em edificações públicas capazes de abrigar grandes contingentes, de forma a distribuir igualitariamente os primeiros recursos e auxílios disponibilizados pelo governo ou por meio de doações populares.

Mas e depois desse primeiro auxílio? Se considerarmos que a construção de uma casa, ou mais propriamente de uma vila inteira, pode demorar cerca de anos para ser concluída, como essas pessoas permanecerão alojadas nesses edifícios públicos como ginásios, escolas ou similares? Tais espaços não oferecem o mínimo de dignidade e privacidade de que as famílias necessitam especialmente em um momento em que estão fragilizadas pelos fatos ocorridos.

Então alternativas de abrigos propostas são a de pensões ou hotéis (pagos pelo município ou responsáveis pelos desastres, quando existam), e abrigos pré-fabricados e/ou desmontáveis (cedidos por instituições governamentais ou não-governamentais) que são transitórios enquanto se reconstroem as habitações definitivas.

No caso do acidente ocorrido em Bento Rodrigues, as famílias foram inicialmente acomodadas no complexo esportivo Arena Mariana e já estão começando a ser transferidas para hotéis e pensões próximos e a comunidade decidiu pela reconstrução de suas habitações definitivas em outra localidade diferente da área de desastre.

Através de estudo desenvolvido durante o mestrado a respeito desses abrigos transitórios, pude constatar que tais espaços necessitam muito mais de uma organização eficiente das ações humanas, com esforços de profissionais de variadas áreas para a resolução dos problemas, do que do espaço de fato, o qual acaba sendo uma consequência natural quando as ações são bem compassadas.

Em relação ao profissional arquiteto, cabe estudar as características do determinado povoado e conferir aos abrigos, caso estes venham a ser provisórios e desenvolvidos antes da habitação definitiva, características que estejam de acordo com as necessidades de cada morador. Em termos práticos, esses espaços necessitam tanto de um dormitório e banheiro quanto de espaços para outras atividades cotidianas (distribuição de donativos, alimentos e água, coleta de esgoto e lixo, locais de ensino e estudos, creches, meios de transporte para o trabalho, entre outros) já que ali permanecerão por alguns poucos anos.

Há muitas outras questões ligadas a essas formas de prover abrigo, mas o que deve acontecer de imediato é cuidar para que essa população continue a viver de forma digna, o que significa dar-lhes o mínimo para seguir com suas atividades cotidianas.

Reformas na Crise

Será que ainda é possível, em meio à presente crise, dispender gastos com reformas? Claro que aquela reforma na arquitetura da edificação pode representar grande investimento em um momento que os recursos precisam ser poupados pela instabilidade econômica no país. Porém, é possível sim tornar os ambientes mais próximos do desejado com pequenas reformas internas, sem modificar necessariamente a estrutura dos espaços e, portanto, economizar no investimento total.

Então, como podemos criar ambientes mais aconchegantes, personalizados, criativos, elegantes e principalmente acessíveis em época de crise? A resposta incide em planejar todas as intervenções junto ao seu arquiteto ou designer e pesquisar os preços antes de executá-las. Abaixo seguem algumas categorias de intervenções para facilitar as escolhas de quem pretende reformar.

ILUMINAÇÃO

A troca das luminárias existentes pode configurar um bom investimento, pois além do aspecto estético que os modelos mais modernos atribuem ao ambiente, podem ainda fornecer maior ou menor quantidade de luz e, assim, propor uma ambientação correta conforme a atividade que ali acontecerá. Se a troca das luminárias não for possível ou for encarecer o orçamento, pode-se optar por luminárias de piso e/ou mesa, que não dependam de intervenção elétrica e que possam, ainda, funcionar como objetos de decoração.

PINTURA

Pintar uma parede ou duas com uma cor intensa e diferente das demais pode agregar personalidade ao ambiente e afastar a monotonia, além de renovar o espaço. Uma opção interessante e descontraída, a exemplo, é personalizar uma parede com tinta de lousa para que seja utilizada como mural de recados e desenhos e que pode ser constantemente renovada conforme o que for ali inserido.

REVESTIMENTOS

Numa reforma com recursos limitados, a troca de revestimentos pode ser muito onerosa e a solução pode incidir na pintura, com tinta específica para esse fim, ou na adesivagem desses revestimentos. Para os pisos, uma opção barata é a instalação de piso sobre o piso existente, como o vinílico ou o laminado de madeira, os quais não modificam os pisos existentes e podem ser instalados de forma simples e rápida, com possibilidade de ocupação do espaço logo após sua instalação.

ADESIVOS

Como vimos os adesivos podem ser instalados sobre revestimentos existentes, mas podem também ser aplicados sobre paredes com pintura, mobiliários, portas, objetos como geladeiras e frigobares, entre outros. Há no mercado infinitas possibilidades de cores e texturas, a preços bem acessíveis, e é possível, ainda, criar-se sua própria padronização. Representam assim um bom elemento para a personalização a baixo custo sendo práticos de se instalar e de ser removidos quando necessário.

PAPEL DE PAREDE

Fáceis de instalar e de limpar, os papéis de parede podem ser uma alternativa para cobrir aquela parede sem graça, a qual deve, porém, ter uma superfície lisa e acabada, sem imperfeições. Os preços podem variar muito conforme fornecedor e texturas escolhidas, mas há sempre opções mais em conta no mercado e que podem atribuir um efeito interessante.

MÓVEIS

A troca dos móveis também favorece uma reforma de interiores, mas pode representar grande dispêndio de recursos. Assim, a reutilização é a tendência para gastar-se pouco. Opções são a repintura de móveis antigos e também a utilização de objetos alternativos como mobiliário, como os já bem conhecidos pallets de madeira e caixotes de feira. A partir do tratamento adequado e do rearranjo desses elementos podem ser criados sofás, armários, estantes, nichos, mesas e outros.

DECORAÇÃO

Para uma decoração mais econômica, podemos nos valer de objetos rústicos da arte popular, como potes e vasos de barro e madeira, artigos em vime e outros que costumam ser mais baratos e valorizar a cultura local. Quadros e pôsteres também são opções baratas e que atribuem maior personalidade aos espaços, até mesmo em banheiros, cozinhas e lavanderia. Almofadas, com texturas e cores diferenciadas, também permitem uma composição sofisticada ou despojada, conforme se queira. Cortinas e tapetes, por sua vez, preenchem melhor os ambientes e podem disfarçar um piso ou parede com acabamento desgastado que não pode ser trocado.

JARDIM

Pequenos jardins internos, feitos a partir de vasos de plantas, os quais podem ser adquiridos no comércio popular a preços bem acessíveis, trazem o verde para dentro dos espaços, renovando-os e deixando-os mais vivos.  A atenção deve estar voltada ao tipo de espécie a ser adquirida para cada ambiente conforme maior ou menor luminosidade incidente.

Por fim, em todas as categorias citadas, a dica para não errar é evitar exageros para não deixar os ambientes sobrecarregados, sendo o objetivo principal garantir a harmonia entre cores, texturas, relevos, formas e volumes de toda a composição. Em relação aos custos, mudar o visual não significa necessariamente comprar tudo novo. Reaproveitar está na moda e cada vez mais presente nas mostras de decoração e arquitetura, já que ao improvisar os materiais e objetos pode-se diminuir o consumo e ainda criar um espaço diferenciado, personalizado e mais acessível.

Rústico e Moderno

Seriam o rústico e o moderno opostos na arquitetura? “Estilos” que não podem coexistir em um mesmo espaço? Engana-se quem pensa que uma casa moderna o é quando nada possui de rústico. Já foi citado em artigo anterior que o estilo moderno está mais ligado à forma de viver do homem de hoje do que às formas da arquitetura em si, sendo que esta apenas traduz, possibilita e facilita seu cotidiano agitado. O rústico pode então, certamente, estar presente em um ambiente dito moderno, pontuado em determinados elementos.

O rústico e o moderno juntos tem sido alguns dos pedidos crescentes para projetos no escritório: a esposa gosta do moderno e o marido do rústico, ou vice e versa. Mas como unir de fato dois “estilos”, mais propriamente ”características”, que parecem se opor?

Há diversas formas de atrelar essas características, e uma delas é através do uso de materiais diferenciados e combinados entre si, por exemplo madeira e concreto, ou vidro e trama de bambu. Também a rusticidade dos materiais empregados, mesmo que “modernos”, pode conferir maior identidade rústica aos ambientes, como acontece com o concreto desempenado sem acabamento, aquele em que parecem ser tiras de madeira no concreto (efeito que se consegue pelas fôrmas utilizadas na sua criação).

Ainda em relação aos materiais, os revestimentos de madeira, tijolos, tons variados de marrons, materiais sem polimento ou brilho, entre outros, são alguns dos artifícios que também podem ser empregados para a criação deste espaço.

Outra forma de trazer aspecto mais rústico é a utilização de uma iluminação mais indireta, dramática e pontual, com cores mais quentes e marcando determinados acabamentos como tijolos, pedras ou madeiras. Um bom projeto de iluminação valoriza muito o efeito do rústico, aliás um bom projeto de iluminação valoriza qualquer outro projeto.

Também, a utilização de objetos e mobiliários, modernos e rústicos combinados entre si e na dose certa, auxiliam na conformação de um espaço rústico-moderno. O segredo está justamente na escolha e proporção dos elementos a ser utilizados.

Além disso, a vegetação circundante do espaço também pode propiciar a união do moderno com o rústico. Um paisagismo menos ordenado, com espécies nativas e que pareça ter simplesmente surgido junto à casa com certeza agregará maior rusticidade ao local.

Um espaço que exemplifica essa forma de se utilizar a vegetação é o parque linear de Nova York, o Highline, instalado em uma via férrea elevada ao lado oeste de Manhattan, no qual os arquitetos definiram que a vegetação a ser utilizada seria aquela que já existia no local, a qual surgiu ali espontaneamente após a desativação do trem. Há quem acredite que a “grama não foi cortada” sem notar que na verdade este é o conceito central daquele projeto, a rusticidade da vegetação consolidada no meio da grande cidade de concreto.

Enfim, são variadas as formas de atrelar rusticidade aos espaços, cabendo então à criatividade dos arquitetos e designers de interiores bem como aos gostos de seus clientes o aspecto final do ambiente, tanto para torná-lo mais rústico quanto para deixá-lo com as características que se queiram.